2014 vinha sendo mais um ano comum. Trabalho, casa. Casa, trabalho. Nada que realmente fizesse diferença. O salário entrava e eu gastava tentando compensar tudo o que não tive antes, um videogame, uma TV grande demais para o espaço que eu tinha, peças soltas que acabaram virando um computador Frankenstein que me acompanhou por mais de uma década. Era o tipo de coisa que eu podia apontar e dizer: “isso é meu”. Na época, isso parecia suficiente.
Eu tinha uma ficante. O termo hoje soa meio datado, mas em 2014 era o que a gente usava. Não era nada sério, mas também não era vazio. Tinha algum peso ali, mesmo que a gente não desse nome.
Eu trabalhava de madrugada, das 23h às 07h. Um horário estranho, que te tira do ritmo do resto do mundo. Durante o dia eu era praticamente inútil ou estava dormindo, ou cansado demais para existir direito. E ainda assim, ela aparecia.
Às vezes no meio da noite. Às vezes perto do fim do turno. Um café, alguma coisa pra comer, qualquer motivo que justificasse a presença. Ela sempre dizia que era insônia. Na época eu aceitava sem pensar muito. Hoje parece óbvio que não era só isso. Era esforço. Era escolha. Era alguém tentando encaixar presença onde não havia espaço.
A gente acabava conversando em lugares que só existem de madrugada postos de gasolina meio vazios, estacionamentos abandonados, lugares que durante o dia parecem normais, mas à noite ficam honestos demais.
Foi numa dessas noites que veio a ideia.
Um final de semana em Buenos Aires.
Assim, do nada.
Aquilo não fazia sentido nenhum pra mim. Soava como algo fora da realidade. Viajar para outro país por um final de semana? Quem fazia isso? Na minha cabeça, isso era coisa de gente com dinheiro sobrando, não de alguém que ainda media valor em coisas que podia colocar dentro de casa.
Mesmo que fosse possível, devia ser caro demais. E, no fundo, eu não via sentido. Gastar dinheiro em uma viagem que não deixava nada concreto parecia desperdício. Pra mim, na época, fazia muito mais sentido comprar uma televisão maior do que atravessar uma fronteira por dois dias e voltar com nada nas mãos.
Ela explicou que não era bem assim. Que existiam promoções, épocas certas, oportunidades. Que dava, sim, para fazer um bate-volta sem gastar tanto. Eu ouvi, entendi até certo ponto, mas não comprei a ideia. Não parecia algo que valesse a troca.
A gente acabou antes que essa viagem acontecesse.
Mas a ideia ficou.
E, de algum jeito meio silencioso, aquilo começou a crescer.
Algum tempo depois, sem muita cerimônia, criei coragem. Entrei na CVC. Peguei o primeiro pacote que pareceu possível e parcelei.
Simples assim


Nessa viagem eu cometi praticamente todos os erros possíveis. Peguei táxi em vez de me virar com ônibus como os locais, fiquei travado na hora de falar um portunhol básico, evitei qualquer situação que me tirasse do conforto. Fiz exatamente o roteiro padrão de quem nunca saiu antes. La Bombonera, show de tango, Calle Florida e o Hard Rock Café, que acabou sendo o começo de uma coleção meio sem sentido de copos de shot. Um por país, como se isso pudesse registrar alguma coisa que não cabe em vidro.
Foi uma viagem curta, limitada, meio tímida. Tinha medo, tinha vergonha, tinha insegurança em praticamente tudo. Ainda assim, alguma coisa ali abriu espaço na minha cabeça de um jeito que eu não estava preparado.
Até então, tudo girava em torno do que eu podia comprar e guardar. Depois disso, começou a mudar. O que ficou não foi um objeto, foi o que eu vi. As pessoas, as lojas, a arquitetura, o jeito como as coisas funcionavam. Comecei a reparar em detalhes que antes passavam batidos. Coisas que claramente não funcionariam no Brasil, outras que funcionavam melhor do que lá. Foi quando começou a ficar óbvio que cultura pesa mais do que a gente gosta de admitir.
Ao mesmo tempo, também ficou claro que, no fundo, a gente não é tão diferente assim. Existe um padrão se repetindo. As mesmas qualidades, os mesmos defeitos, espalhados em pessoas que você nunca viu. Às vezes é até mais fácil enxergar isso nos outros do que em si mesmo.
Como acontece com muita gente, a primeira vez foi desajeitada, rápida e meio confusa. Nada saiu exatamente como poderia. Mas depois que aconteceu, não dava mais para ignorar. Alguma coisa encaixou, e parar deixou de ser uma opção.






Como a primeira vez de muita gente, foi desajeitada, rápida e meio confusa. Nada saiu como deveria, provavelmente acabou antes do que eu gostaria de admitir, e mesmo assim eu saí dali achando que tinha sido algo grande.
Não foi.
Mas também não importava.
Porque depois da primeira, você entende. Não tem mais volta. Alguma coisa vira, e você passa a querer repetir, mesmo sabendo que ainda vai errar bastante.
E no fim, por mais torta que tenha sido, a primeira sempre fica.
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